Os smartphones tornaram-se a principal porta de acesso aos serviços digitais, e os dispositivos Android representam a maioria do tráfego móvel global em 2026. Neste contexto, o Privacy Sandbox no Android constitui uma das mudanças mais relevantes na infraestrutura de publicidade móvel da última década. A iniciativa foi concebida para reduzir o rastreamento entre aplicações, mantendo ao mesmo tempo o modelo económico que sustenta muitas apps gratuitas. Para os utilizadores, isto significa limites mais rigorosos na forma como o seu comportamento é monitorizado. Para programadores e anunciantes, implica repensar segmentação, medição e atribuição sem recorrer a identificadores ao nível do dispositivo.
Durante anos, a publicidade móvel dependeu fortemente de identificadores únicos de dispositivos, como o Google Advertising ID (GAID). Embora os utilizadores pudessem redefinir ou limitar o rastreamento de anúncios, na prática a criação de perfis entre aplicações continuava amplamente disseminada. Reguladores no Reino Unido e na União Europeia intensificaram a supervisão ao abrigo do UK GDPR e do Digital Markets Act, pressionando as grandes empresas tecnológicas a reduzir práticas de rastreamento invasivas. O Privacy Sandbox no Android surge como resposta a estas exigências regulatórias e às crescentes expectativas dos utilizadores em matéria de proteção de dados.
A partir do Android 13 e ao longo do Android 14 e 15, a Google foi restringindo gradualmente o acesso a identificadores publicitários e introduzindo novas APIs orientadas para a proteção da privacidade. Em 2026, as APIs do Privacy Sandbox estão amplamente implementadas em dispositivos com versões suportadas do sistema, e a descontinuação dos métodos tradicionais de rastreamento encontra-se em fase avançada. O objetivo não é eliminar a publicidade, mas sim limitar a partilha de dados pessoais entre aplicações sem consentimento explícito.
Do ponto de vista técnico, a iniciativa desloca o processamento de dados de modelos centralizados de rastreamento por terceiros para cálculos realizados no próprio dispositivo. Em vez de permitir que múltiplas aplicações e redes publicitárias recolham dados comportamentais detalhados, o Android passa a realizar localmente a definição de interesses e a seleção de anúncios. Desta forma, reduz-se a exposição de dados individuais, mantendo a possibilidade de apresentar anúncios relevantes.
Um dos componentes centrais é a Topics API. Em vez de partilhar histórico detalhado de navegação ou utilização de aplicações, o dispositivo atribui um número limitado de categorias amplas de interesse, como “Viagens” ou “Fitness”, com base na atividade recente. Estes tópicos são armazenados localmente e partilhados com aplicações de forma restrita e temporária. Os anunciantes recebem sinais menos precisos do que no modelo anterior, mas suficientes para manter um nível de relevância contextual.
Outro elemento essencial é a Attribution Reporting API. Anteriormente, os anunciantes dependiam de identificadores individuais para medir conversões entre aplicações. No novo modelo, a medição de conversões é realizada através de relatórios agregados e com atraso temporal, impedindo a identificação de utilizadores específicos. Este mecanismo introduz limites e ruído estatístico para proteger a privacidade, preservando ao mesmo tempo a análise do desempenho das campanhas.
O SDK Runtime representa também uma mudança estrutural. Os SDKs publicitários de terceiros passam a operar num ambiente mais isolado dentro do Android, com acesso mais limitado aos dados da aplicação anfitriã. Na prática, isto redefine a forma como as redes publicitárias são integradas e impõe fronteiras técnicas mais rigorosas entre código próprio e código de terceiros.
Para os utilizadores, a mudança mais perceptível é a redução de anúncios excessivamente personalizados que parecem acompanhar as suas ações em diferentes aplicações. Embora a publicidade continue presente em muitas apps gratuitas, os sinais utilizados para segmentação tornam-se mais amplos e menos intrusivos. A sensação de rastreamento constante entre aplicações é significativamente reduzida.
A transparência também foi reforçada. As definições do Android oferecem agora controlos mais claros sobre os tópicos de interesse atribuídos ao dispositivo, permitindo visualizar, remover ou redefinir essas categorias. Em mercados como o Reino Unido e a União Europeia, esta abordagem está alinhada com os princípios de consentimento informado e minimização de dados.
Existem ainda benefícios indiretos ao nível da segurança. Ao limitar a partilha de dados entre aplicações e isolar SDKs de terceiros, diminui-se o risco de uso indevido de informação. Embora o Privacy Sandbox não elimine todos os riscos relacionados com privacidade, reduz de forma significativa a circulação de dados comportamentais detalhados.
As melhorias em privacidade implicam algumas concessões. Sinais de segmentação mais amplos podem reduzir a precisão de determinados anúncios, sobretudo em interesses muito específicos. Os utilizadores poderão notar campanhas mais genéricas em certos contextos.
Muitas aplicações gratuitas continuam dependentes de receitas publicitárias. Caso a eficiência da segmentação diminua de forma relevante, alguns programadores poderão explorar modelos híbridos, incluindo subscrições ou compras integradas. Assim, o impacto do Privacy Sandbox estende-se também à sustentabilidade económica das aplicações móveis.
Importa ainda clarificar que o Privacy Sandbox não equivale a anonimato total. Dados recolhidos por uma aplicação para fins próprios continuam sujeitos à respetiva política de privacidade. A iniciativa centra-se sobretudo na limitação do rastreamento entre aplicações, e não em todas as formas de tratamento de dados.

Para os programadores, a transição exige adaptação técnica. A integração das novas APIs requer atualização de SDKs publicitários e revisão de pipelines de análise. É necessário testar o desempenho das campanhas num contexto de relatórios agregados e ajustar modelos de atribuição que anteriormente dependiam de identificadores determinísticos.
Os anunciantes enfrentam uma reconfiguração estratégica. A segmentação passa a basear-se em categorias mais amplas e sinais probabilísticos. A otimização das campanhas depende cada vez mais de dados agregados e de modelos de aprendizagem automática capazes de operar com menor granularidade. Em 2026, muitas marcas já reforçaram as suas estratégias de dados próprios para compensar a redução do rastreamento por terceiros.
Os prazos de medição também sofreram alterações. Relatórios de atribuição podem ser entregues com atraso e sujeitos a limites mínimos de volume. Isto afeta a rapidez com que os profissionais de marketing avaliam resultados e ajustam orçamentos, exigindo abordagens analíticas mais robustas e planeamento a médio prazo.
A tendência aponta para sistemas publicitários concebidos com privacidade incorporada desde a origem. A abordagem do Android acompanha mudanças semelhantes noutras plataformas, consolidando um cenário em que o rastreamento individual se torna cada vez mais restrito. Em 2026, a medição agregada e o processamento local já são considerados novos padrões do setor.
A publicidade contextual ganha novamente relevância. Em vez de depender exclusivamente de perfis comportamentais detalhados, os anunciantes voltam a valorizar o contexto da aplicação, o tipo de conteúdo e sinais temporais. Esta mudança incentiva estratégias criativas e menos dependentes de recolha extensiva de dados.
O Privacy Sandbox no Android não representa o fim da segmentação publicitária, mas redefine profundamente os seus mecanismos. Os utilizadores beneficiam de maior controlo e proteção, enquanto programadores e anunciantes operam dentro de limites técnicos e regulatórios mais rigorosos. No ecossistema móvel de 2026, a segmentação continua possível, mas baseada em agregação, restrição e responsabilidade.